Evento reuniu comunicadores de diferentes realidades da Igreja e contou com a participação de agentes das dioceses de Penedo e Palmeira dos Índios
(pascombrasil.org.br).-Em um tempo marcado por telas, algoritmos e inteligência artificial, reunir pessoas para conversar, partilhar experiências e fortalecer vínculos também é uma forma de comunicar. Foi com essa perspectiva que a Pastoral da Comunicação (Pascom) da Arquidiocese de Maceió realizou, no dia 8 de agosto, o II Encontro Arquidiocesano da Pascom, reunindo comunicadores de diferentes realidades da Igreja para um dia de formação, convivência e reflexão.
O encontro contou com a participação de agentes das Pascom’s paroquiais e de Conventos; comunicadores de grupos, movimentos e profissionais de diferentes áreas, além de comunicadores vindos de outras dioceses. Estiveram presentes representantes das dioceses de Penedo e Palmeira dos Índios, fortalecendo uma experiência de comunhão que ultrapassou os limites territoriais da Arquidiocese de Maceió.
A presença das duas dioceses também carrega um significado histórico e eclesial: tanto Penedo quanto Palmeira dos Índios são dioceses irmãs da Arquidiocese de Maceió. A participação de seus agentes no encontro tornou ainda mais significativa a proposta de aproximar diferentes realidades da comunicação na Igreja.
Inspirado no tema do 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais, o encontro trouxe para o centro das discussões os impactos da inteligência artificial e dos algoritmos na identidade e nas relações humanas. As reflexões, porém, não se limitaram às ferramentas digitais. Ao longo do dia, os participantes foram convidados a olhar também para a pessoa do comunicador, suas experiências, relações e testemunho.
Este ano a organização do encontro convidou palestrantes da Arquidiocese e do regional nordeste 2. O chanceler da Cúria Metropolitana, Côn. Valmir Galdino, e o vigário geral da Arquidiocese, padre José Elielton, marcaram presença e interagiram com os agentes; destaque para a presença do Diácono Paulo Gomes, que realizou momentos de animação. Ainda pela Arquidiocese, a presidente do CNLB, Flávia Mendes, trouxe, em sua fala, o protagonismo do leigo para uma comunicação que agrega unidade e a relações públicas, Jaqueline Silva, de forma direta acalorou a sua palestra com a provocação: “Sua Pascom quer evangelizar ou viralizar?”. Já pelo Regional Norteste 2, o jornalista Rafael Augusto, da Diocese de Campina Grande, e a secretária da Comissão Regional da Pascom, Ingridy Rossely, trouxeram reflexões em prol de uma comunicação acolhedora e humana.
A proposta foi reforçar que comunicar, na Igreja, não significa apenas produzir conteúdos ou utilizar adequadamente as novas tecnologias. Significa também encontrar o outro, escutá-lo e tornar-se parte de sua realidade. Durante uma das primeiras reflexões do encontro, essa dimensão foi sintetizada pelo Cônego Valmir Galdino, chanceler da Cúria:
“Quem comunica participa ao outro (no sentido de tornar o outro parte). Minha missão é levar o amor ao outro e o amor tem nome: Deus.”
Formação que fortalece a missão
Entre os participantes estava Gabriel Lima, membro do Comissão da Pascom Arquidiocesana e com trajetória na Pascom da Paróquia São João Maria Vianney. Após participar recentemente do 9º Encontro Nacional da Pastoral da Comunicação, em Aparecida (SP), ele destacou como esses momentos podem renovar a disposição para servir e ampliar o olhar sobre as diferentes experiências presentes na Pastoral da Comunicação.
“Para mim, é uma alegria porque, primeiro, que reaviva a minha fé, reaviva a minha missão de servir, a vontade de querer servir. Um encontro desse porte, assim como o Nacional, reúne muitas experiências extras além de todo o conhecimento programado para ser aplicado ali e acaba sendo algo realmente reavivador.”
Para Gabriel, a formação também precisa estar acompanhada da atenção às relações dentro das comunidades. Segundo ele, é necessário olhar para o outro e reconhecer que cada pessoa carrega uma realidade que nem sempre é conhecida. Essa disposição pode ajudar a identificar conflitos internos e externos que, quando não são enfrentados, acabam interferindo no serviço e na unidade.
“É olhar para o outro e perceber que ali existe todo um universo que não conhecemos, se a gente não se deixa afetar ou conhecer. É nesse acesso que podemos identificar conflitos, interno ou externo, com alguém. E há esse bloqueio também. Isso gera um bloqueio para o serviço e, então, acaba dispersando. Às vezes, a gente mesmo acaba se perdendo e perdendo o outro justamente por essa questão de não haver unidade.”

Uma experiência que ultrapassa fronteiras
De Arapiraca, na Diocese de Penedo, Iago Adriano participou do encontro acompanhado por outros agentes. Para ele, a formação oferecida pela Pascom representa uma oportunidade de levar conhecimento para além daqueles que estiveram presentes.
“Os coordenadores viram que essas formações proporcionadas pela PASCOM da Arquidiocese são muito importantes, principalmente para nós passarmos para os nossos irmãos de outras paróquias e da diocese. O que a gente aprende aqui não pode ficar somente na nossa vida. A gente precisa incentivar os outros e conseguir transmitir essa mensagem.”
Iago organizou uma caravana com amigos da Diocese de Penedo e participou do encontro por iniciativa própria. A experiência também reforçou, segundo ele, a responsabilidade de multiplicar o conhecimento adquirido.
A presença de agentes de outras dioceses expressou uma das propostas centrais do encontro: criar pontes entre diferentes comunidades e realidades da Igreja, compartilhando experiências e fortalecendo a comunicação como serviço.
Inteligência artificial sem perder a essência
A presença da inteligência artificial na comunicação foi outro ponto de destaque. A tecnologia foi reconhecida como uma ferramenta que pode auxiliar o trabalho dos comunicadores, mas o encontro chamou atenção para a necessidade de preservar aquilo que nenhuma ferramenta pode substituir: a experiência humana, o testemunho e a dedicação de quem serve.
Iago reconhece que a inteligência artificial pode ter utilidade no trabalho cotidiano, mas alerta para o risco de seu uso retirar da comunicação justamente aquilo que a torna humana.
“Eu sei que a inteligência artificial pode ser utilizada para algumas coisas, para dar alguns retoques, mas nem sempre para tirar a nossa essência, a essência do nosso servir. Porque, quando utilizamos a inteligência artificial, principalmente nas postagens e nas paróquias, a gente vai perdendo a essência, aquele amor, aquela dedicação em servir a Cristo. A gente vai perdendo a nossa fé, a nossa dedicação, o nosso amor que sentimos.”
A reflexão não propõe rejeitar a tecnologia, mas questionar qual lugar ela deve ocupar na missão da comunicação. A ferramenta pode contribuir para o trabalho, mas não deve substituir a pessoa que comunica nem a relação que existe por trás de cada mensagem.
Criar pontes e não degraus
Outro aspecto presente no encontro foi a necessidade de aproximar diferentes grupos, pastorais e ministérios. A participação de agentes de diversas realidades reforçou a perspectiva defendida pela coordenadora-geral da Pascom, Maria Cícera, de “criar pontes e não degraus”, fortalecendo vínculos e buscando formar amigos, e não concorrentes, na comunicação.
A Renovação Carismática Católica também participou do encontro, ampliando esse espaço de aproximação entre diferentes serviços da Igreja. Para o atual coordenador do Ministério de Comunicação da RCC Maceió, a experiência representou uma oportunidade de servir e fortalecer a unidade, mesmo sem uma formação específica na área da comunicação.
“Eu não sou da área, não tenho nenhuma formação na área, e vim a serviço mesmo. Como eu servia no grupo de oração, acabei chegando à comunicação por causa dos chamados. É uma alegria grande, porque a gente vê essa unidade. Todos nós somos uma Igreja só. Quando isso acontece, essa união entre os ministérios, existe também uma comunicação maior.”
Uma comunicação feita de rostos e vozes
Para Maria Cícera, a realização do encontro nasceu da necessidade de aproximar agentes da comunicação e, cada vez mais, comunicadores católicos de diferentes realidades.
A participação de pessoas de outras dioceses reforçou essa dimensão. Mais do que reunir agentes em torno de técnicas de comunicação, a proposta foi criar um espaço para que diferentes experiências pudessem se encontrar.
“A intenção desse encontro não é só reunir agentes da pastoral da comunicação e hoje comunicadores católicos de outras realidades. É estreitar laços. É saber que a realidade do outro até é mais difícil do que a minha. Mas eu fico preso no meu comodismo, no meu quadradinho e esqueço que o outro sofre, que o outro também precisa da minha ajuda e eu não me voluntario a ajudar em nada.”
Ao refletir sobre a proposta de uma comunicação centrada em “vozes e rostos humanos”, Cícera defendeu que a missão da Igreja não pode ficar limitada à técnica. Para ela, a comunicação de Jesus é uma referência justamente porque estava profundamente ligada às pessoas e às suas histórias.
“Jesus Cristo, quando comunicava, olhava nos olhos. Quando falava das parábolas, ele sentia a dor, ele tinha compaixão. Mas ele também se alegrava, ele também chorou quando Lázaro morreu. Então, por que nós teimamos em estar na técnica, se o nosso lugar é na pastoral? O nosso lugar é tocando o coração, falando com a nossa vida, com o nosso testemunho.”
“Uma paróquia não é feita de algoritmos”
A reflexão sobre a humanização da comunicação também passou pela relação entre comunidade e redes sociais. Cícera chamou atenção para o risco de os números e os algoritmos se tornarem mais importantes do que as pessoas que formam a Igreja.
“Uma paróquia não é feita de algoritmos, é feita da senhora que viu o rolar da pedra fundamental até o jovem que está chegando, que está vivendo uma crise.”
A frase sintetiza uma das principais provocações do encontro: por trás de cada publicação, curtida, compartilhamento ou número de alcance existem pessoas, histórias e relações.
Por isso, a Pascom é chamada a reconhecer seu papel não como protagonista acima dos demais, mas como serviço e ponte dentro da comunidade.
“Ela tem que reconhecer que ela existe, que ela é protagonista de uma história, não porque ela é a melhor nem a mais importante, mas porque ela é ponte, ela tem que ser ponte.”

A escuta como caminho de unidade
A construção dessa comunicação mais humana também passa, segundo Cícera, pela capacidade de olhar para dentro da própria Pastoral da Comunicação e reconhecer aquilo que precisa ser transformado.
A aproximação com outros grupos, pastorais, ministérios e dioceses é parte desse processo. Para ela, a mudança precisa começar pela própria Pascom antes de cobrar transformações dos outros.
“Eu sei que tem erros dos dois lados, mas eu me preocupo com o nosso. O que a gente faz de diferente? Não interessa o outro, mas o que eu faço? Então, o maior cuidado da PASCOM tem que ser o outro, tem que ser a escuta.”
Ao final, Cícera reforçou que a Pastoral da Comunicação não está acima das demais pastorais, movimentos e ministérios. Seu lugar é junto das pessoas, servindo e criando pontes.
“Eu acho que a presença da PASCOM na paróquia é em primeiro ela se reconhecer com o lugar dela, não acima de todos, mas como servidora.”
O II Encontro Arquidiocesano da Pascom deixou, assim, uma provocação que ultrapassa a realidade local: em uma Igreja formada por diferentes comunidades, dioceses, grupos e histórias, comunicar é também criar pontes. E, diante do avanço das tecnologias, a missão continua passando por aquilo que nenhuma ferramenta substitui — o encontro, a escuta, o testemunho, a fé e a capacidade de reconhecer, por trás de cada mensagem, um rosto humano.
